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Mostrando postagens de maio, 2011

máscara

Via o mundo por detrás de uma máscara de ferro. Barreira de aço maciço. Ninguém o via. Viam apenas a máscara que, por incrível que pareça, passava uma ideia de bom moço, responsável, educado, recatado, prestativo e atencioso. Palavras e movimentos moderados, somente o essencial. Trivialidade friamente calculada. Parecia feliz e realizado, atrás da máscara de ferro. Quando ela, companheira, envolvia-lhe o rosto pálido, era respeitado. Falso respeito. Falsidade quase teatral, dissimulação também velada por máscaras. Todos usam máscaras, naquele espaço. Os desconhecidos mascarados cumprimentam-se, saúdam-se, parabenizam uns aos outros. As máscaras sorriem, emitem sons, cospem palavras mornas, vazias, insossas, mas que satisfazem as necessidades práticas de uma imediaticidade artificial e biodegradável. Por trás da máscara, uma pessoa cheia de ideias - a diante do metal sólido, uma ideia, sem qualquer personalidade. Ninguém o conhecia realmente, naquele baile de máscaras sorridentes. Mas ...

insobriedade

Hoje esbarrei num bêbado. Ou ele esbarrou em mim. Não importa. Não me esquivei. Não desviei o corpo, nem o olhar. Não o empurrei, não lhe dei um tapa, um soco, um chute. Ele vinha em minha direção, na calçada. Só queria continuar andando. Me fitou fundo nos olhos, como quem diz, cambaleante, "sai da frente, ou trombo em você!". Mal podia parar quieto sobre as fracas pernas, quanto mais andar pela calçada, cheia de gente apressada. Ninguém o via. Eu vi, e ele me viu. Pôs-se, sem aviso, em direção ao chão. Não pensei, apenas meti-me na trajetória da queda. Suas mãos apoiaram-se em meus ombros. O peito quase colado no meu, o rosto ao lado do meu rosto, sem encostar. Mudei a posição do pé esquerdo, para dar melhor apoio aos nossos dois corpos magros. Meus pulmões inevitavelmente foram preenchidos pelo cheiro etílico que exalava da pele flácida, enrugada, íntima do cimento das ruas e das calçadas. Não o soltei, não me desviei do corpo que insistia em encontrar o velho amigo chão....

por trás de olhos molhados

Imagem
Ela costurava. Gostava de usar as mãos, ver que ainda funcionavam bem. Realizava-se em cada peça que produzia. Haviam, em sua rua, padeiros, carpinteiros, professores, escritores, músicos. Ela, costurava. As mãos delicadas e trêmulas ainda tinham força e precisão para pôr a agulha no lugar exato. Os olhos por trás das lentes amareladas dos óculos ainda podiam reconhecer a tonalidade perfeita, a trama do tecido, a proporção das medidas e o prumo da costura. Como a agulha que perfura o tecido, o tempo, impiedoso que é, havia penetrado sua pele, seus cabelos, as mãos, pés e vértebras, fazendo com que tudo se modificasse e adquirisse outras texturas, cores, formas. Já não era mais a mesma. Ela olha-se no espelho, do seu lado esquerdo. "O mundo nunca para de girar, não é minha velha?" Pedalada após pedalada na antiga máquina de costura, ela suspira ao pensar no bolo de fubá que já começa a se anunciar para o mundo, aproveitando-se da brisa vinda da cozinha e que toca-lhe as na...