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Mostrando postagens de 2011

ah, a insônia...

Me cansei de tudo o que escrevo - de tudo o que já escrevi. Me cansei de sempre pensar com a mesma voz. Enjoei da voz da minha cabeça. Talvez por isso eu não escreva há algum tempo. Tenho essa mania besta de nunca gostar do que eu mesmo faço. Autocrítica? Pode ser. Ou TOC mesmo. Ou medo. Conversando com uma amiga, na semana passada, descobri que sempre tive medo do julgamento alheio. Medo de ser testado - e não passar no teste. Existe coisa mais idiota? Ninguém liga pro que você faz, ou se faz bem ou mal feito. As pessoas estão preocupadas demais com seus pequenos problemas diários. Enquanto você acha que alguém está te observando e te analisando, ele provavelmente está pensando no que tem pra fazer à noite, nas contas a pagar ou na garota que passa lá atrás de você, em frente ao café do outro lado da rua. Pensamos demais. Perdão, eu penso demais. Nunca se pode falar pelos outros, certo? Ora, admita: às vezes podemos, sim, generalizar. Generalizando, pois, digo que gostamos de pens...

trilhos

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Que o tempo passe junto, ao lado - ou longe, tanto faz... por cima, nunca. Ele passa como um trem, pesado e barulhento, desgovernado. Não cessa, não para. Não tem maquinista, não muda de sentido ou direção. Como um bom trem, corre sobre trilhos. Sempre sobre os mesmos trilhos intermináveis. Não pensa, não sente, não se importa. Os trilhos do trem do tempo não permitem desvios. Apenas seguem, e seguem. É ilusão pensar que se pode estar sobre o trem do tempo. Ingenuidade. Se ficar na linha, o tempo passa por cima de você.  Quero as estradas, não os trilhos. O tempo continuará passando sempre. Mas não por cima de mim. Estradas são escolhas. Você nunca será totalmente livre, nunca mesmo. Não no mundo em que vive. Não do jeito que nosso mundo é. Mas terá escolhas, se viver por estradas ao invés de trilhos. Imagine, para quem só conhece a vida nos trilhos, de repente poder mudar de sentido, de direção! A possibilidade da partida é carregada de incertezas, e incertezas tem cores, chei...

ar

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Hoje me veio, de súbito (lugar comum literário que me causa certa náusea, mas que eu tinha que usar, apenas pra fazer este comentário inútil entre parênteses), uma vontade lascada de sair correndo. Não pelado, como disse em um post que fiz há algum tempo. Não quero passar a ideia de ser um naturalista enrustido. Só sair correndo, seja a pé ou motorizado. Tenho uma falta de ar característica, que me aparece sempre que me sinto preso. Não é proveniente do cansaço, muito menos de problemas respiratórios. Chame de stress , se quiser, mas ainda acho que usar palavras genéricas em inglês pra explicar coisas sem um motivo aparentemente concreto é um pouco clichê, como usar "de súbito" ao invés de "de repente" para que o texto pareça "bem escrito". Se quer um texto "bem escrito", não exagere assim nas "aspas". Fica feio. A explicação para esse meu problema deve ser a falta de vento na cara, mesmo gelado, em dias como hoje. A propósito,...

brilhante, a mente humana

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- Ai menina, você não sabe da maior! - Que foi? Conta, conta, conta ! - Meu cunhado, Juliano, tá tendo um caso! Uma garota da turma dele, tal de Amanda não sei das quantas. - Nossa, como assim? A Ju sabe? - Foi ela quem me contou! Ela pegou um email da tal sem-vergonha pra ele, dizendo que foi muito bom, que se sentiu segura, que não sei o que lá... acredita? meu, que raiva dele! - Não creio! Mas e ela, vai fazer o quê agora? - Já fez! Pegou um carinha lá que faz curso com ela... o cara era a fim dela, dava moral e tal, aí ela saiu com ele anteontem. - E foi? - Foi! - Nossa, que loucura! Mas é isso mesmo, tá certa ela! Ele mereceu! - Uniu o útil ao agradável, né? O cara era bonitinho. - Eu teria feito o mesmo, sem dó! Homem é tudo igual mesmo, tem que sofrer na mesma moeda! E o Juliano sabe disso? - Não sabe não. E nem sabe do e-mail, também; ela apagou. Tá certa ela, ele iria desmentir, falar um monte de baboseiras pra ela e a coitadinha ia acabar caindo. Mulher é muito boba, sem...

congelar as partes

Hoje acordei com uma vontade absurda de sair correndo sem roupa, nesse frio que me faz querer esfregar os ossos com Bom Bril pela manhã. Conheço – muito bem, arrisco dizer – uma pessoa que vive me falando de uma ânsia de, um dia, correr sem roupa no frio. Pois pela primeira vez sei realmente o que é isso. Não é algo que se possa explicar. Contraria os instintos mais básicos de sobrevivência, aqueles que acompanham todos os seres viventes desde o grande Big Bang (sim, acredito). Que vontade de correr pelado no frio. Sim, “pelado” mesmo. Acho “nu” uma palavra xoxa. E “xoxa”, uma palavra feia. Palavras muito me intrigam... Okay. Foco, certo? Eu falava sobre correr pelado. Será que ando desenvolvendo algum tipo de repulsa a roupas? O inverno muito me agrada; o problema é que me atinge de uma forma um tanto exagerada. As oito blusas, três calças, quatro meias, luvas e tocas (é claro que é uma hipérbole ) me irritam, incomodam, e me dão vontade de ficar pelado logo de uma vez e, com isso,...

máscara

Via o mundo por detrás de uma máscara de ferro. Barreira de aço maciço. Ninguém o via. Viam apenas a máscara que, por incrível que pareça, passava uma ideia de bom moço, responsável, educado, recatado, prestativo e atencioso. Palavras e movimentos moderados, somente o essencial. Trivialidade friamente calculada. Parecia feliz e realizado, atrás da máscara de ferro. Quando ela, companheira, envolvia-lhe o rosto pálido, era respeitado. Falso respeito. Falsidade quase teatral, dissimulação também velada por máscaras. Todos usam máscaras, naquele espaço. Os desconhecidos mascarados cumprimentam-se, saúdam-se, parabenizam uns aos outros. As máscaras sorriem, emitem sons, cospem palavras mornas, vazias, insossas, mas que satisfazem as necessidades práticas de uma imediaticidade artificial e biodegradável. Por trás da máscara, uma pessoa cheia de ideias - a diante do metal sólido, uma ideia, sem qualquer personalidade. Ninguém o conhecia realmente, naquele baile de máscaras sorridentes. Mas ...

insobriedade

Hoje esbarrei num bêbado. Ou ele esbarrou em mim. Não importa. Não me esquivei. Não desviei o corpo, nem o olhar. Não o empurrei, não lhe dei um tapa, um soco, um chute. Ele vinha em minha direção, na calçada. Só queria continuar andando. Me fitou fundo nos olhos, como quem diz, cambaleante, "sai da frente, ou trombo em você!". Mal podia parar quieto sobre as fracas pernas, quanto mais andar pela calçada, cheia de gente apressada. Ninguém o via. Eu vi, e ele me viu. Pôs-se, sem aviso, em direção ao chão. Não pensei, apenas meti-me na trajetória da queda. Suas mãos apoiaram-se em meus ombros. O peito quase colado no meu, o rosto ao lado do meu rosto, sem encostar. Mudei a posição do pé esquerdo, para dar melhor apoio aos nossos dois corpos magros. Meus pulmões inevitavelmente foram preenchidos pelo cheiro etílico que exalava da pele flácida, enrugada, íntima do cimento das ruas e das calçadas. Não o soltei, não me desviei do corpo que insistia em encontrar o velho amigo chão....

por trás de olhos molhados

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Ela costurava. Gostava de usar as mãos, ver que ainda funcionavam bem. Realizava-se em cada peça que produzia. Haviam, em sua rua, padeiros, carpinteiros, professores, escritores, músicos. Ela, costurava. As mãos delicadas e trêmulas ainda tinham força e precisão para pôr a agulha no lugar exato. Os olhos por trás das lentes amareladas dos óculos ainda podiam reconhecer a tonalidade perfeita, a trama do tecido, a proporção das medidas e o prumo da costura. Como a agulha que perfura o tecido, o tempo, impiedoso que é, havia penetrado sua pele, seus cabelos, as mãos, pés e vértebras, fazendo com que tudo se modificasse e adquirisse outras texturas, cores, formas. Já não era mais a mesma. Ela olha-se no espelho, do seu lado esquerdo. "O mundo nunca para de girar, não é minha velha?" Pedalada após pedalada na antiga máquina de costura, ela suspira ao pensar no bolo de fubá que já começa a se anunciar para o mundo, aproveitando-se da brisa vinda da cozinha e que toca-lhe as na...

sobre mãos, olhos e o tempo

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Abril. Haviam se passado oito meses. Dez, se contarmos as saídas de final de semana, enquanto os dois se conheciam melhor. Ou reconheciam-se. Quatro anos e alguns meses, contando desde a primeira vez em que trocaram olhares pelos corredores e mensagens virtuais - frias, mas que lhes esquentavam a alma. A nuca arrepiava, sempre que pensava nela, o olhar à televisão - ou qualquer parede, poste, árvore - e esperava pela conversa da noite. Naquele tempo, ele não podia tê-la, mas queria. Ela não podia querer, e se obrigava a não pensar em possibilidades. Mas pensavam. E só. Nunca se falaram pessoalmente. Ele tinha medo, em primeiro lugar, da possível reação da moça, ou de não saber conduzir o papo como pela internet. Morria de vergonha, insegurança. Coisa de adolescente. Em segundo lugar, morria de medo de não conseguir controlar os sentimentos que podiam brotar de um contato direto com os olhos, que sabia apenas que eram verdes. Não sabia exatamente como eram aqueles olhos, as mão...

talvez

Talvez eu morra amanhã. Talvez me case em três anos, ou viaje para a França, ou México. Talvez compre uma moto, rode milhares de quilômetros e conte as histórias pra alguém, já com voz de velho e aquele brilho nos olhos de quem já viu luz demais. Talvez não consiga, viva enfurnado num escritório, tratando papéis com a minúcia e o cuidado de quem poda roseiras nos jardins do Palácio de Buckingham. Não me importo com o casamento real, e talvez nunca me entre na cabeça o porque disso ainda existir. Talvez me torne músico de botequim, e veja meus dedos envelhecerem e endurecerem alternando-se entre cordas de violão. Ou talvez seja sempre apenas mais um baterista que nunca aprendeu a tocar outro instrumento. Talvez meu rosto se resseque e a pele enrugue e rache com o tempo, devido a anos de intenso vento da estrada... ou pela falta de sol em ambientes fechados com ar condicionado.  Talvez tenha amor pra vida toda, daqueles que alguém um dia vai transformar em roteiro de filme ou em li...

do início

Pois é, acabei fazendo um blog. Sempre falei sobre isso, sempre tive vontade, mas a falta de tempo (desculpa esfarrapada pra não assumir a preguiça) sempre me impediu. Hoje deixei de arquivar alguns documentos, de importar arquivos de retorno e de dar baixa em faturas pra realizar este antigo desejo. Não me pergunte qual minha pretensão em ter um blog, ou o que espero conseguir (?) com isso... o lance é que talvez assim eu me obrigue a escrever mais. Quem me conhece sabe bem que essa minha cabeça, às vezes, mais parece um  Cirque du Bizarre , um disco do Frank Zappa ou talvez um almanaque do Ary Toledo. Penso milhares de coisas ao mesmo tempo, pouquíssimas delas podem ter alguma finalidade prática que possa trazer qualquer benefício para o planeta ou algum de seus habitantes. Em miúdos: penso muita porcaria. Vejo então esse blog como uma possível válvula de escape pra toda essa produção massiva de conteúdo gratuito e desmedido que, embora não tendo absolutamente nenhuma utilidade...

postagem inaugural

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Como primeira postagem, compartilho aqui duas letras de bandas que gosto bastante: A primeira é de uma das músicas do disco A Meta , de uma ótima banda classificada como post-hardcore (embora eu seja um tanto avesso a esse tipo de classificações em sub-tipos dentro do rock) chamada Fullheart , banda paulista que infelizmente acabou em 2007 (se eu estiver enganado, alguém me corrija, por favor). Capa do disco "A Meta" (Fullheart, 2003) Ouça em http://tramavirtual.uol.com.br/musica/tocar/19933/ O lúdico, o Autoritário e o Polêmico Está ventando aqui fora... posso sentir meu rosto frio, mas isso não representa muita coisa a ponto de me inspirar. Eu poderia até forçar ser depressivo, escrever sobre uma tristeza que não vivo e chamar isso de "profundo". Quem sabe até ir bem mais longe e esquecer onde está a minha sinceridade, até que isso se torne algo espontâneo. Mas não quero ser ironia a toda hora, nem vou fingir que eu sou frio e só consigo agir com a próp...