sobre mãos, olhos e o tempo




Abril. Haviam se passado oito meses. Dez, se contarmos as saídas de final de semana, enquanto os dois se conheciam melhor. Ou reconheciam-se. Quatro anos e alguns meses, contando desde a primeira vez em que trocaram olhares pelos corredores e mensagens virtuais - frias, mas que lhes esquentavam a alma. A nuca arrepiava, sempre que pensava nela, o olhar à televisão - ou qualquer parede, poste, árvore - e esperava pela conversa da noite. Naquele tempo, ele não podia tê-la, mas queria. Ela não podia querer, e se obrigava a não pensar em possibilidades. Mas pensavam. E só. Nunca se falaram pessoalmente. Ele tinha medo, em primeiro lugar, da possível reação da moça, ou de não saber conduzir o papo como pela internet. Morria de vergonha, insegurança. Coisa de adolescente. Em segundo lugar, morria de medo de não conseguir controlar os sentimentos que podiam brotar de um contato direto com os olhos, que sabia apenas que eram verdes. Não sabia exatamente como eram aqueles olhos, as mãos, o contorno da boca, a voz, o cheiro, a risada. E continuou sem saber, só imaginando. Até que se distanciaram de vez. 

Sem mais mensagens virtuais. Os ois quotidianos tornaram-se verdadeiras pequenas torturas quase que diárias para ele, até o dia em que passou a estudar à noite, e não mais a viu nos corredores da universidade. Sentia-se aliviado, pois a imagem dela nas mesas e bancos, rindo com os amigos, insistia em lembrá-lo de suas fraquezas, limitações, amarras. Vê-la era um tapa bem no meio do rosto. Tinha vergonha. O tempo passou, embalado pelo vento, e muita coisa aconteceu. Os dois viviam, sem saber, situações quase idênticas, salvas as devidas proporções. Vinte e três quilômetros e meio e a rotina sufocante os separavam. Vidas diferentes, as mesmas sensações. Viveram outros amores, tiveram medo, raiva, sorriram, choraram. Sem pensar um no outro, sequer lembrar.

- Oi, quanto tempo! Tudo certo contigo?
- Nossa, tá viva?! haha.. Tudo indo, e você?
- Também... ando meio desanimada com o curso... e você? Já se formou? Tá trabalhando?
- Meu, ando desanimado com tudo. Estou enroscado ainda na licenciatura e empurrando o TCC com a barriga.
- É, parece que estamos no mesmo barco, então!

Sim, estavam no mesmo barco furado, e talvez estivessem desde o início. Do nascimento. As conversas tornaram-se constantes. Não haviam mais amarras ou impedimentos. O reencontro trazia à tona assuntos inacabados, era quase uma questão de honra levá-la para tomar um café, e mostrar que não tinha nenhum tipo de doença social. Assim o fizeram. O primeiro encontro, regado a café e conversas sobre a vida. Ele tratou logo de reparar nos olhos, nas mãos, na boca, na risada. Assustou-se em perceber como tudo lhe agradava. Os encontros continuaram. A partir do segundo, as conversas aconteciam entre beijos furiosos e abraços apertados. Saudade. Não sabia a razão, mas sentia que não a abraçava a anos - mesmo nunca o tendo feito antes. A impressão de já a conhecer de outras vidas era assustadora! Mas gostava muito disso.

Dois meses depois do reencontro, o namoro. Depois de oito meses de namoro, a saudade acumulada de outras vidas aumentava a cada dia, semana. O amor inundara o corpo magro e a alma enfraquecida. O aperto no peito agora se confunde com a sensação de leveza, com a respiração que flui como se o ar lhe massageasse os pulmões a cada movimento do diafragma. Para um leitor desatento, uma contradição. Não para ele. O aperto vinha da vontade de estar não perto dela, não sobre ou enrolado naquele corpo como um casaco de pele, mas dentro, misturado ao sangue que corria em suas veias, inclusive as que se tornam visíveis através da pele macia em dias quentes. Respirar agora era bom. A cada mês eles se pareciam mais, não porque estavam mudando, um por causa do outro: era por se reconhecerem mais, um nos olhos do outro. Ele queria entrar na mente dela, tratar cada ferida, retirar cada preocupação, recuperar cada pensamento quebrado, cada sensação em desalinho. Como alguém que reforma um quarto para a chegada do primeiro filho.

De um namoro de quase uma gestação, ele só queria a continuação. Ver o que o destino lhes preparava. Que o que tivesse que mudar, mudasse pra aproximar-lhes as mãos, os olhares, para que pudesse sempre se aninhar no colo dela, abraçar o corpo de perfeito encaixe em seu corpo e se aquecer em noites frias de junho. Todos os junhos. Não tinham, até então, passado juntos por um mês de junho. Ele só pensava, entre emissões de boletos e telefonemas de clientes, que completava-se mais um mês, e que era sexta, e que a veria logo mais, ao cair da noite fria de fim de abril. 

- Meu bem, nos vemos amanhã! Quer que eu leve algo? Um vinho? Chocolate?
- Traga você, o resto não importa.

E entre boletos e telefonemas o dia continuou, arrastando-se pelas paredes brancas do escritório. "Dane-se o mundo, hoje eu só quero saber daqueles olhos, daquelas mãos, boca, cheiro e risadas, e de dormir aninhado no aconchego daquele corpinho macio." E os meses também continuaram. Logo vieram os junhos, julhos, agostos....



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

é só uma fase

segunda tentativa

ah, a insônia...