segunda tentativa
Três anos. Um bom tempo, desde minha última postagem. Muita coisa mudou, desde então. Neste momento escrevo da sala dos professores, com um copo de café do meu lado esquerdo, uma pequena pilha de avaliações do lado direito e Radio Moscow tocando no YouTube. Isso aí, agora sou professor! Dá pra acreditar? Na verdade isso é novidade apenas aqui no blog - já é meu terceiro ano como Sociology teacher. Eu quis tanto isso, e é como se só hoje a ficha realmente tivesse caído. Dá pra perceber pelas postagens antigas (não as leia, por favor) que eu era - ou andava sendo - um sujeito chato pra caralho. Não chegava a ser depressivo, mas um tanto descontente, descrente e pessimista com relação à vida. A falta de propósito ou perspectiva pode transformar uma pessoa em um saco de batatas ambulante. Mudanças são boas. A maioria delas, pelo menos. A profissão e a cidade certas dão uma injeção de ânimo numa carcaça cansada e preguiçosa. Isso tudo faz o maluco ter energia pra mais alguns anos de loucura.
Hoje o frio começou pra valer aqui na capitar. Acordei um pouco mais tarde, sem voz pelo terceiro dia seguido (culpa do ar condicionado do Empório São Francisco), tomei um banhão quente, daqueles que transforma o banheiro numa sauna, estendi a roupa, me encapotei todo, peguei o velho capacete fechado e botei a danada pra esquentar - pois é, agora tenho uma moto - para encarar o vento cortante de Curitiba. Acabei de ler minha última postagem aqui. Foi na época do busão. Se tenho saudade? Um pouco. De algumas coisas daquela época. Várias, na verdade. O inverno me deixa nostálgico, nunca soube bem o porquê. Me faz lembrar de quando minha mãe saía pra trabalhar e me deixava com minha avó. Lembro das tardes chuvosas naquela casa, do cheiro, da sensação. Sei lá, acho que a vida era mais simples. Eu lembro de quantas coisas eu queria e consegui conquistar, e de quantas eu perdi e tenho saudades. Mas a vida é assim: perdas e danos versus ganhos e conquistas. À medida que a gente acha que avança, vai tornando a vida cada vez mais complicada. A cada "conquista", você se acostuma a um novo padrão de vida, aos novos confortos e privilégios, mas na mesma proporção ganha novas responsabilidades, contas, mais stress e problemas pra resolver. Quando a vida é mais simples você só pensa em "evoluir". Depois, quando se dá conta de que não faz mais nada além de lutar pra manter estas tais conquistas, você deseja voltar àquela simplicidade de antes, mas mantendo o tal conforto. Não dá. Nem sempre, pelo menos.
Quanto mais o tempo passa, mais percebo que não sei de nada. Depois que me separei (ah é, esqueci de mencionar este detalhe), resolvi praticar o desapego. Não de pessoas, por elas ainda me apaixono (kind of, mas isso é assunto pra outra postagem), mas da vida material/prática em geral. Pode ser só uma fase, mas tá sendo uma fase importantíssima no meu processo de autoconhecimento. Simplifiquei processos, desisti de manias, revi planos e metas, doei roupas, vendi móveis, quitei contas. Ando conquistando mais tendo menos. Sobra mais tempo, mais dinheiro e energia pra coisas que me fazem bem. Algumas sempre fizeram, mas eu acabei deixando de lado por alguns motivos - ou por motivo algum. Montei uma nova banda, fiz mais tatuagens, resolvi entrar de cabeça no trabalho, sair mais, aprender mais, conhecer pessoas, cuidar mais de mim, viajar e, finalmente, pra coroar esta empreitada rumo a mim mesmo: ressuscitei, agora, meu velho blog. Não sei se evoluí, nesse meio-tempo - até porque não gosto dessa ideia de "evolução". As coisas mudam e é só isso. Não se tornam necessariamente melhores, porque isso é muito relativo. E com certeza mudei. Hoje leio o que costumava escrever e me dá meio que uma vergonha alheia, sabe? Isso aí: alheia mesmo. É como se outro eu tivesse escrito tudo aquilo, então tenho vergonha por ele, não por mim. E por isso decidi reativar o blog, mas sem apagar os textos antigos. Justamente pra que fique claro - pra mim mesmo, não pra você, leitor(a) - o efeito do tempo no organismo pensante de um ser humano que acha que sabe de alguma coisa. Como disse, a cada dia aprendo que não sei de nada. Aprendo a aprender (oi? Sesi?), e isso é ótimo, eu acho.
Este post é uma segunda introdução, uma segunda chance pra este terapeuta de araque - porém gratuito, e uma segunda chance pra mim mesmo enquanto paciente - que sempre fugiu das terapias da vida por não ser lá tão paciente assim. Tirando as teias de aranha do blog e de mim mesmo como escritor de meias palavras cheias de entrelinhas, declaro reaberta a aventura de escrever o que ninguém realmente quer ou precisa saber. Não sei com que frequência vou escrever aqui. Não prometo nada, nem pra mim. Nem sei se vou compartilhar o que escrevo. O fato é que escrever faz bem pra caralho, e hoje eu não dispenso mais o que me faz bem.

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