é só uma fase


1.
Nem sei o que estou fazendo aqui, falando sozinho - como se já não o tivesse feito durante as últimas 48 horas. Vou encarar isso como um diário que, embora talvez ninguém nunca leia, tem a missão de suportar o peso dos pensamentos que não me cabem mais dentro da cabeça.

Cheguei à fase do vazio. Passada a fase Super-Homem - posso tudo / sinto nada, vem a fase do vazio. Sinto nada, e só. É claro que este é o resultado óbvio da vontade de não sentir, ou do medo, se assim preferir. Medo. Vazio e medo andam comigo desde sempre, lado a lado. Um abre caminho pro outro, num ciclo sem fim de incertezas e não-buscas. As não-buscas são aquelas lutas que não se realizam, simplesmente por parecerem muito maiores e pesadas do que meus braços e pernas poderiam suportar. Decido-me, recorrentemente, então, pelo óbvio: evitar a luta que não penso poder vencer. Medo - covardia - vazio. É, acho que esta é a ordem. 

O vazio me corrói por dentro desde que posso me lembrar. Há tempos vinha evitando a sensação, preenchendo o tempo e o espaço com coisas, pessoas, trabalho, mais trabalho. E com mais vazio. Agora, eu e meu velho algoz nos encontramos novamente, mas com muito mais intensidade. Uma intensidade que eu jamais tinha experimentado. Passada a fase do Super-Homem, entrei de cabeça no vazio. Toda separação é dolorosa, triste, arranca pedaços - ou deixa apenas pedaços. Cacos. Daqueles tão pequenos que você olha e acha que nunca mais vai ser possível juntar. Você sai de cabeça erguida, forte, disposto a tudo, louco pra ver o mundo brilhar pra você como nunca fez. Você se arma, se cerca de desculpas, uma bela máscara sorridente, e sai pra rua, ver a noite. Balela. Teatro. Por dentro, você é apenas cacos e sangue. Chega um momento que você sem querer esbarra em algo e a máscara cai. 

Foi aí que o espelho enorme, atrás da porta do meu quarto alugado, resolveu me dar um tapa na cara - a verdadeira cara, sem máscara. Vazio. "Eu sempre quis este tempo sozinho pra me conhecer, pensar na vida". Mentira! Nunca quis. Sempre tive medo de morrer sozinho. É feriado, estou sozinho em uma casa enorme; chove sem parar há três dias; todos que conheço estão viajando. Não tenho mais carro nem dinheiro para o táxi. Nem aonde ir. Só o vazio.

[rascunho escrito em 12 de outubro de 2015]

2.
Biblioteca da FIEP, terça-feira à tarde, inverno. Acabo de ressuscitar o blog e, com a euforia de quem recupera a memória, depois de longos anos de amnésia, aproveito pra ler postagens e rascunhos antigos. Três amigos me cercam, em uma mesa redonda; os laptops formando uma ilha ao centro do móvel. Cluster Meeting de Ciências Humanas. Daqui a pouco, vinte alunos me esperam para a aula de filmmaking - cada equipe de dez está iniciando a fase de produção de um curta-metragem, estes a serem exibidos ao final do bimestre. Depois, collective work meeting, com todos os professores e equipe pedagógica. 

Saindo daqui, às sete e quinze, pego minha moto e corto o frio até minha casa, a cinco minutos do colégio. Tenho duas opções: a) comida e academia; ou b) comida, banho e filme. Talvez tenha companhia, talvez não. Pras duas coisas. As contas estão em ordem. A propósito, são pouquíssimas contas, hoje em dia. As pessoas lá são legais e a casa é sempre animada. Meu quarto é quente e meu banheiro é limpo e cheira bem. Tenho planos, me sinto realizado profissionalmente (por enquanto) e meus amigos são sensacionais. Saboreio sempre que posso os momentos de solidão, mas raramente me sinto verdadeiramente sozinho. Cara, como as coisas mudam, né? Há poucos minutos, lendo meus rascunhos, encontro uma pérola da fossa jovem moderna. Sério, até eu, que costumo ser excessivamente autocrítico, se não soubesse que o texto é meu, acharia ótimo, até bem escrito e tal, mas... esse cara se matou logo depois, né? Porra, que bad trip é essa, jovem? Sai dessa, cara! Se hoje eu pudesse voltar naquele dia, do qual me lembro bem, daria logo um jeito de animar aquele trapo humano ridículo semi-depressivo, nem que fosse com uns tabefes. Se liga cara, é só uma fase ruim, você é melhor que isso! Pare com essa lamentação escrota e dá um jeito nessa sua vida torta, seu merda! 

Que bom que fiz isso. Hoje eu sei: aprendi a duras penas que tudo é fase. Tudo! Fico feliz em olhar pra trás e ver que o que deixei foram pegadas fundas sobre a poeira da minha constante autodestruição. Dos entulhos de mim mesmo, do meu velho eu, me reconstruo a cada dia, tentando sempre ser melhor - em algum aspecto, pelo menos. Aqueles cacos, hoje, se montam a cada dia de uma maneira nova, diferente, melhor. Não são mais cacos, mas pedaços de um todo que se adapta a cada nova situação posta. Em quê eu melhorei hoje? Como cresci? O que aprendi? Que diferença eu fiz no mundo hoje? É nessa pegada que a coisa flui. É nessa vibe de fazer a diferença + enjoy the moment + low expectations que grandes coisas acontecem. 

A grande questão, em um mundo onde poucas coisas realmente fazem sentido, é tentar problematizar, compreender, curtir cada fase em sua essência. Como com chocolate: que às vezes é ao leite, às vezes amargo, mas deve sempre ser saboreado com muita calma. Clichê? Dane-se. Outra coisa que aprendi hoje é que clichês são clichês por algum motivo. Se não fizessem pelo menos algum sentido, não seriam. Hoje sei curtir as "bads" que a vida traz, com bebida e música apropriados, sabendo que aquelas vão passar, me preparando para as boas fases que certamente virão e tentando minimizar os prejuízos da experiência de estar vivo.

[texto escrito em 03 de maio de 2016]





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