talvez
Talvez eu morra amanhã. Talvez me case em três anos, ou viaje para a França, ou México. Talvez compre uma moto, rode milhares de quilômetros e conte as histórias pra alguém, já com voz de velho e aquele brilho nos olhos de quem já viu luz demais. Talvez não consiga, viva enfurnado num escritório, tratando papéis com a minúcia e o cuidado de quem poda roseiras nos jardins do Palácio de Buckingham. Não me importo com o casamento real, e talvez nunca me entre na cabeça o porque disso ainda existir. Talvez me torne músico de botequim, e veja meus dedos envelhecerem e endurecerem alternando-se entre cordas de violão. Ou talvez seja sempre apenas mais um baterista que nunca aprendeu a tocar outro instrumento. Talvez meu rosto se resseque e a pele enrugue e rache com o tempo, devido a anos de intenso vento da estrada... ou pela falta de sol em ambientes fechados com ar condicionado.
Talvez tenha amor pra vida toda, daqueles que alguém um dia vai transformar em roteiro de filme ou em livro de romance. Talvez tenha uma companheira para educar filhos e deseducar netos, e talvez lhes conte as histórias de um avô maluco que fez muita coisa bacana na vida. Talvez eles se encham de orgulho em contar histórias desse avô para os coleguinhas da escola. Ou talvez não. Talvez eu morra sozinho, amargo e endurecido por ma vida toda pensando em como teria sido se tivesse ficado lá, se tivesse ido pra acolá, se tivesse me casado com fulana ou assassinado ciclano. Talvez eu tenha encontrado essa pessoa, esse lugar, talvez tenha que levá-la pra outro lugar, ou precise mudar de vida, de jeito, de cabelo, de estilo. Como diria um conhecido filósofo nordestino, "não sei se mate, se faça uma rifa, se funde uma igreja ou se me candidate".
Este texto está sendo escrito no calor do momento; estranho, inundado de pensamentos e sentimentos que não se misturam, como água e óleo. Pensamentos e sentimentos que não podem ser explicados ou expressados em algumas - ou sequer em muitas - linhas cheias de palavras escritas apressadamente na hora do almoço. Por isso não pretendo me iludir: não vou tentar explicar. O fato é que incerteza é a palavra do momento, do dia, da semana, de 2011. Mas hoje, desde o meio dia, ela tem me consumido como o fogo faz com palha seca. De fato, posso ser o fogo ou a palha.
Talvez eu leia isto mais tarde e me arrependa de ter escrito, de ter acordado hoje, e talvez me arrependa de ter feito muitas outras coisas; de ter ficado, de ter ido, de ter me doado e me entregue de corpo e alma a cada momento especial (não gosto dessa palavra) e inusitado que me foi apresentado como possibilidade, por Deus ou o que quer que chamemos assim. Só não me arrependo de ter amado cada momento, e dos momentos em que amei demais. As coisas me atingem de um jeito mais forte, pelo simples fato de eu sentir demais cada detalhe das coisas. Algumas delas me vêm como socos no estômago, e é exatamente essa a sensação. Talvez eu tenha uma vida feliz - e descubra o que diabos é isso, afinal. Apesar de tudo, respiro fundo e me sinto bem, fisicamente. Só uma coisa é certa: preciso estar de volta ao trabalho daqui a quinze minutos. Essa é minha única certeza no momento.
Post by Pedrinho Lispector, hahaha =)
ResponderExcluirfinalmente o seu blog.
Fico feliz em, mesmo de longe, rir das 8974541 coisas que passam pela sua cabeça.
Serei leitora assídua! :*