trilhos
Que o tempo passe junto, ao lado - ou longe, tanto faz... por cima, nunca. Ele passa como um trem, pesado e barulhento, desgovernado. Não cessa, não para. Não tem maquinista, não muda de sentido ou direção. Como um bom trem, corre sobre trilhos. Sempre sobre os mesmos trilhos intermináveis. Não pensa, não sente, não se importa. Os trilhos do trem do tempo não permitem desvios. Apenas seguem, e seguem. É ilusão pensar que se pode estar sobre o trem do tempo. Ingenuidade. Se ficar na linha, o tempo passa por cima de você. Quero as estradas, não os trilhos. O tempo continuará passando sempre. Mas não por cima de mim. Estradas são escolhas. Você nunca será totalmente livre, nunca mesmo. Não no mundo em que vive. Não do jeito que nosso mundo é. Mas terá escolhas, se viver por estradas ao invés de trilhos. Imagine, para quem só conhece a vida nos trilhos, de repente poder mudar de sentido, de direção! A possibilidade da partida é carregada de incertezas, e incertezas tem cores, cheiros e sabores. Os trilhos, não. Somente o velho gosto de um misto de metal, carvão e sangue. Se desejo tanto a partida, é por ainda ter amor próprio. Se todo o mais é incerto, resiste uma certeza: a ânsia de sentir o tempo passar com cores, cheiros, sabores e possibilidades, antes de morrer e virar hipótese.

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