ar




Hoje me veio, de súbito (lugar comum literário que me causa certa náusea, mas que eu tinha que usar, apenas pra fazer este comentário inútil entre parênteses), uma vontade lascada de sair correndo. Não pelado, como disse em um post que fiz há algum tempo. Não quero passar a ideia de ser um naturalista enrustido. Só sair correndo, seja a pé ou motorizado. Tenho uma falta de ar característica, que me aparece sempre que me sinto preso. Não é proveniente do cansaço, muito menos de problemas respiratórios. Chame de stress, se quiser, mas ainda acho que usar palavras genéricas em inglês pra explicar coisas sem um motivo aparentemente concreto é um pouco clichê, como usar "de súbito" ao invés de "de repente" para que o texto pareça "bem escrito". Se quer um texto "bem escrito", não exagere assim nas "aspas". Fica feio. A explicação para esse meu problema deve ser a falta de vento na cara, mesmo gelado, em dias como hoje. A propósito, quem tem "cara" é cavalo, diria meu pai.

Pode ser gelado, sim, o vento. Não tem problema. Eu queria mesmo era uma câmera na mão, a namorada na garupa (atenção para a palavra "garupa": não é estranha?), tanque cheio e nenhum compromisso nos próximos dias. É pedir demais? A tal "vida adulta" não é tão fácil assim. Faz com que eu me sinta numa gaiola, às vezes. A bala de maçã verde que saboreio neste momento me lembra os tempos de colégio, quando minha única preocupação era tirar as músicas pros ensaios de sábado à noite, com os mesmos amigos com os quais eu saía aos finais de semana - amigos estes que, hoje, eu raramente vejo. A vida te afasta de algumas coisas e pessoas, à medida que cada um passa a se preocupar com seus próprios problemas de gente grande.

Por outro lado - o bom - isso traz muita coisa bacana pra compensar. Não tenho o que reclamar dos últimos tempos, na verdade. Se olhar pelo lado positivo das coisas, tenho muito pelo que ser grato - e eu sempre tendi a ver o lado bom das coisas. Defeito? Não sei. Não sou otimista, não, é diferente. "O otimismo sem fundamento é uma forma de organizar o desespero", disse certa vez um tal sociologozinho cabeçudo, razoavelmente famoso. Ver o lado bom pode ter fundamentos sólidos, e não é deixar de ser realista porque, de fato, as coisas têm sim um lado bom. Pra quem é que algumas coisas são boas, é outra história. 

Meu problema é ser impaciente. Ansiedade! E estou absurdamente ansioso pra saber o que a vida, a mesma que te tira algumas coisas e traz outras no lugar, me reserva nos próximos meses. Tenho muitos planos, e são ótimos; mas ainda me vejo em uma condição de impossibilidade, impedimento... espera. O tempo parece não passar e a mistura de ansiedade e impaciência deixam minha respiração mais pesada. Principalmente dentro de um escritório onde, enquanto escrevo, o ar é condicionado artificialmente por uma máquina barulhenta, acima da minha cabeça, na parede de trás. Não circula naturalmente, e o vento vem... da parede? Deve vir daí, de tudo isso, essa tal vontade de sair correndo, e de encher meus pulmões de ar de verdade.



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