congelar as partes
Hoje acordei com uma vontade absurda de sair correndo sem roupa, nesse frio que me faz querer esfregar os ossos com Bom Bril pela manhã. Conheço – muito bem, arrisco dizer – uma pessoa que vive me falando de uma ânsia de, um dia, correr sem roupa no frio. Pois pela primeira vez sei realmente o que é isso. Não é algo que se possa explicar. Contraria os instintos mais básicos de sobrevivência, aqueles que acompanham todos os seres viventes desde o grande Big Bang (sim, acredito). Que vontade de correr pelado no frio. Sim, “pelado” mesmo. Acho “nu” uma palavra xoxa. E “xoxa”, uma palavra feia. Palavras muito me intrigam...
Okay. Foco, certo? Eu falava sobre correr pelado. Será que ando desenvolvendo algum tipo de repulsa a roupas? O inverno muito me agrada; o problema é que me atinge de uma forma um tanto exagerada. As oito blusas, três calças, quatro meias, luvas e tocas (é claro que é uma hipérbole) me irritam, incomodam, e me dão vontade de ficar pelado logo de uma vez e, com isso, perder a saúde, o emprego, a dignidade e a perspectiva de futuro, numa porrada só. "Que coisa mais autodestrutiva", alguém há de pensar. Pelo menos não sentiria mais tanto frio. Agora, me pego a confabular comigo mesmo: se sinto tanto frio, por que diabos tal vontade de sacudir livre e indiscriminadamente minhas partes pudendas pelas ruas da cidade, arriscando furar meus pés em pedras e mergulhar minha reputação no ácido da recriminação alheia? Além, é claro, de dar margem a condenação por atentado ao pudor. Pois é, um mistério até para mim mesmo.
Certamente seria uma péssima idéia. Para ilustrar melhor a coisa, o amigo leitor pode comparar essa vontade à vontade de xingar algumas pessoas das quais depende o seu sustento, ou de esfregar com um ar quase sádico a orelha de alguém no asfalto quente, toda vez que a sua paciência é posta à prova. Não confunda, por favor, esta vontade de correr pelado com exibicionismo. Meu modesto porte físico não me inspira esse tipo de sentimento. O lance é muito mais espiritual. Queria mesmo era estar em Woodstock. É, eu sei. O fato é que tenho certeza de que, um dia, se o cosmos permitir (juro, conheci alguém chamado Cosmos, mas não é a ele que me refiro no momento), eu vou dar vasão a esse anseio por liberdade têxtil (!?). Quem sabe um dia, né? Talvez eu tenha até companhia para isso. Enquanto esse dia não chega, vou ali me vestir para voltar ao trabalho, antes que eu pegue um resfriado daqueles! Peace.
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