máscara
Via o mundo por detrás de uma máscara de ferro. Barreira de aço maciço. Ninguém o via. Viam apenas a máscara que, por incrível que pareça, passava uma ideia de bom moço, responsável, educado, recatado, prestativo e atencioso. Palavras e movimentos moderados, somente o essencial. Trivialidade friamente calculada. Parecia feliz e realizado, atrás da máscara de ferro. Quando ela, companheira, envolvia-lhe o rosto pálido, era respeitado. Falso respeito. Falsidade quase teatral, dissimulação também velada por máscaras. Todos usam máscaras, naquele espaço. Os desconhecidos mascarados cumprimentam-se, saúdam-se, parabenizam uns aos outros. As máscaras sorriem, emitem sons, cospem palavras mornas, vazias, insossas, mas que satisfazem as necessidades práticas de uma imediaticidade artificial e biodegradável. Por trás da máscara, uma pessoa cheia de ideias - a diante do metal sólido, uma ideia, sem qualquer personalidade. Ninguém o conhecia realmente, naquele baile de máscaras sorridentes. Mas ele só passou a fazer parte do espetáculo, quando vestiu aquela máscara. Deixou de ser jovem demais para a função que exercia, quando passou a usar óculos. Mascara-se a ideia - nasce o personagem - morre uma pessoa.
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