dor de cabeça




Mais um dia chuvoso em Curitiba. No ônibus, um sujeito de cara amarrada exalando amargura desfere um enfático e grave “não”, quando cordialmente pergunto se ele poderia pular para o próximo assento, para que eu e minha mulher pudéssemos nos sentar lado a lado. Não bastasse a falta de beleza do dia frio, úmido e cinzento – típico dia do outono curitibano, ainda me vejo obrigado a engolir este tipo de comportamento, às dez para as sete da manhã de terça-feira. Achei por bem responder com um sonoro e irônico “valeu, viu companheiro? Brigadão aí. Bom dia pra você viu?”, e deixá-lo aproveitar os olhares de reprovação das pessoas ao redor. O próximo ônibus chegou rápido e para nós, pelo menos, ficou tudo bem.

Geralmente me sinto bem em dias frios e cinzentos. Mas este começou diferente. A ideia de que terei de trabalhar na sexta, pós quinta-feira de Corpus Christi, e de que o tempo chuvoso e frio não deixa que minhas roupas de cama, lavadas no domingo, sequem até o feriado, não me saíam da cabeça. Ademais, a noite mal dormida e a impossibilidade de tirar minha pestana sagrada durante a viagem pro trabalho - devido à proximidade entre os bancos, que me impedia de recostar confortavelmente - me fizeram passar a viagem toda pensando nas longas horas que terei de enfrentar até chegar ao prêmio no final do tabuleiro deste dia: minha cama.

Chegando ao trabalho, vejo que a moça que teve o carro arrombado e depenado ontem, em frente à empresa, acabara de bater o mesmo carro por não dar sinal ao dobrar a esquina. Ainda tremendo e assustada, por ontem e por hoje, ela queixa-se com a companheira de departamento, entre os curiosos sob os guarda-chuvas: que vida é essa? Por que a gente enfrenta tudo isso? Não é de hoje que esta pergunta me incomoda. Às vezes ela aparece, como se fosse aquela dorzinha de cabeça que atua em segundo plano quando fico muito tempo sem comer nada, ou quando não durmo direito. Como hoje. A propósito, não sei se a dor de cabeça de hoje foi pelo café da manhã apressado – composto apenas de meio copo de leite com Nescau; se foi pela noite mal dormida; pela falta da já rotineira soneca no ônibus ou se foi pela pergunta. Por que enfrentamos tudo isso?




Não quero parecer pessimista. Pelo contrário, meu otimismo deve ser maior que a dor de cabeça. Falo, agora, especificamente da pergunta. Eu acho que sei por que passo por tudo. Não sei porque tem que ser assim, apenas. Já escrevi um texto sobre isso. O fato é que complicamos tudo. A vida poderia ser bem mais simples. Eu sei bem onde quero chegar, e como quero aproveitar o caminho até lá. Por mais que o caminho seja esburacado, perigoso e incerto, o jeito como o enfrentamos faz toda a diferença. A moça do carro, ao se acalmar, decidiu: "vou vender essa porcaria de carro e comprar uma bicicleta - eu moro a dez minutos daqui!".

Chegando na empresa, lavei as “mãos de ônibus”, tirei a jaqueta, acomode-a no encosto da cadeira e saquei um pacote de Nesfit da gaveta. A propósito, dizem aqui que minha gaveta tem fundo falso para estoque de mantimentos, pro caso de um eventual apocalipse. Tomei um café bem forte, liguei o rádio na Mundo Livre e a primeira coisa que ouvi foi a voz do Eddie Vedder. Lembrei-me imediatamente de Into The Wild, filme que assisti há pouco tempo, em companhia e por indicação da minha garota. Se você conhece o filme, não preciso explicar porque o citei neste parágrafo. Se não conhece, baixe-o aqui e assista assim que puder, debaixo das cobertas, e também vai entender porque o citei neste parágrafo.

Agora já não importa mais qual era a causa da dor de cabeça. Em menos de meia hora, a dor passou. Matei a fome com biscoito, o sono com café e me lembrei da resposta para a pergunta. A minha resposta. Lembrei do amigo que chega em dois dias, da moto em duas semanas e do filho em alguns anos. Tanto faz se serei Assistente de Licitação, Professor ou Carpinteiro. Pensei no que tenho conquistado, no que ainda quero conquistar e nas reais possibilidades que tenho de chegar lá, seja como for. Desisti de pensar que tudo está errado, que o mundo está perdido, as pessoas não-sei-o-quê, o Estado isso, o Governo aquilo, e por aí vai. Depois da piada de mau gosto do Concurso Público para o Quadro Próprio do Magistério do Paraná, e de ler Thoreau, não espero mais nada de nenhum tipo de poder legalmente instituído. Não espero mais nada de ninguém que não eu mesmo. Não espero que as coisas simplesmente aconteçam, ou melhorem, assim como não espero mudar o mundo ou o jeito como as coisas e as pessoas são. Como o próprio Thoreau diria, “vim a este mundo não, principalmente, para fazer dele um bom lugar para se viver, mas para viver nele, seja bom ou mau”. Só quero poder fazer com que o meu mundo seja bom - o meu e o dos meus.





Agora a 103 toca Free Bird, e a chuva deu uma trégua. As pessoas correm de um lado ao outro entre os departamentos, apressadas, pensando em seus afazeres mais imediatos. Minhas cobertas devem estar encharcadas no varal agora, e o feriado não me sai da cabeça. Daqui a pouco eu volto para casa. É só mais um dia frio e cinzento em Curitiba. Geralmente me sinto bem dias assim. São bons para me lembrar da casa da minha avó, sentir saudade e pensar na vida.



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