por trás de olhos molhados
Ela costurava. Gostava de usar as mãos, ver que ainda funcionavam bem. Realizava-se em cada peça que produzia. Haviam, em sua rua, padeiros, carpinteiros, professores, escritores, músicos. Ela, costurava. As mãos delicadas e trêmulas ainda tinham força e precisão para pôr a agulha no lugar exato. Os olhos por trás das lentes amareladas dos óculos ainda podiam reconhecer a tonalidade perfeita, a trama do tecido, a proporção das medidas e o prumo da costura. Como a agulha que perfura o tecido, o tempo, impiedoso que é, havia penetrado sua pele, seus cabelos, as mãos, pés e vértebras, fazendo com que tudo se modificasse e adquirisse outras texturas, cores, formas. Já não era mais a mesma. Ela olha-se no espelho, do seu lado esquerdo. "O mundo nunca para de girar, não é minha velha?"
Pedalada após pedalada na antiga máquina de costura, ela suspira ao pensar no bolo de fubá que já começa a se anunciar para o mundo, aproveitando-se da brisa vinda da cozinha e que toca-lhe as narinas, antes de fugir pela janela dissolvendo-se no vento frio de outono. O dia estava fresco e os movimentos da máquina de costura produziam ruídos que se confundiam com seus pensamentos distraídos. Um de seus dedos indicadores passa desavisado pelo caminho da indiferente agulha de metal. A gota vermelha que ameaça escorrer a traz à mente um misto de dor e espanto, como um raio em uma árvore seca: "estou viva!"
A simpática senhora de cabelos curtos e grisalhos corre à cozinha e pega um pedaço de toalha de papel do rolo que repousava sobre a tampa do fogão, que limpara há vinte minutos com Veja. Retira os óculos com a outra mão e os abandona sobre a mesa. Não consegue parar de olhar para aquela gota vermelha, brilhante. Ela deixa que o papel caia no chão da cozinha e caminha lentamente para o quintal, com todo o cuidado, para que a gota de sangue não se perca. Ah, como era linda! A claridade do dia a permite admirar aquilo que, por algum tempo, esquecera que habitava suas veias inchadas sob a pele já flácida e enrugada. Há quanto tempo não o via?! Ela o contemplava extasiada, com os olhos úmidos e um breve sorriso que arriscava aparecer nos lábios, há tempos sem batom. Ela o recebeu como a um antigo conhecido, que acabara de retornar de uma longa viagem. Desvia o olhar da gota de sangue e percebe-se descalça sobre a grama do quintal. Fecha então os olhos enquanto enche apressadamente os pulmões, como se o ar lhe tivesse faltado por alguns segundos, e enterra os dedos por entre as folhas da grama verde, sentindo a terra e o cheiro de rosas e goiaba no vento macio que vinha do quintal do vizinho.
Com os olhos fechados, os pés na grama e os braços largados, moles, ela consegue ver um céu azul, os ramos de trigo de algumas semanas de idade e uma sorridente goiabeira. Mais nada. Apenas o campo de trigo e o horizonte a cercam por todos os lados, por detrás dos olhos molhados. ela olha para baixo e não vê mais os joanetes. Nem se assusta em ver aqueles pés brancos, delicados e lisos de adolescente, a saia na altura dos joelhos. Ela até consegue sentir a leveza da juventude: quilos e anos mais leve. Os ramos de trigo curvam-se em sua direção, embalados pelo vento que agora parece lhes dizer "idolatrem-na, ela possui pernas!".
Antônia viu-se jovem novamente. Pelo menos até abrir os olhos. Percebeu então que os campos de trigo deram lugar à casa de madeira. O horizonte transformou-se em muros, e a goiabeira agora pertencia ao vizinho. Lembrou-se de tudo o que vivera até ali, enquanto os joanetes e os netos cresciam. A gota de sangue misturava-se agora ao chão, penetrando no solo úmido e frio. As mãos calmamente passeiam pelos cabelos quase brancos, antes de secarem as lágrimas que temiam descer pela face, ainda muito graciosa, apesar dos muitos ventos de muitos outonos. Ah, como os anos passaram depressa... Era bom lembrar-se de como seu corpo e o trigo eram belos, e de como combinavam com a goiabeira e o céu. Envelhecer é inevitável, e viver valera a pena, afinal.
De volta à máquina de costura, ainda de pés descalços e terra sob as unhas, Antônia põe-se a pedalar na velha máquina de costura. Ela lembrou-se do que tinha em comum com o trigo e a goiabeira: todos estavam vivos, mas um dia iriam alimentar o solo, de uma forma ou de outra, como uma gota de sangue que penetra na terra em meio à grama verde. De tempos em tempos a agulha esbarrava em um de seus dedos caprichosos. "O mundo nunca para de girar", dizia ao espelho. E enquanto recordava, ela costurava.

- Ler esse texto, ao som de Lightnin' Hopkins, o tornou ainda mais belo. Gostei muito do blog e, estou seguindo. (:
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