insobriedade


Hoje esbarrei num bêbado. Ou ele esbarrou em mim. Não importa. Não me esquivei. Não desviei o corpo, nem o olhar. Não o empurrei, não lhe dei um tapa, um soco, um chute. Ele vinha em minha direção, na calçada. Só queria continuar andando. Me fitou fundo nos olhos, como quem diz, cambaleante, "sai da frente, ou trombo em você!". Mal podia parar quieto sobre as fracas pernas, quanto mais andar pela calçada, cheia de gente apressada. Ninguém o via. Eu vi, e ele me viu. Pôs-se, sem aviso, em direção ao chão. Não pensei, apenas meti-me na trajetória da queda. Suas mãos apoiaram-se em meus ombros. O peito quase colado no meu, o rosto ao lado do meu rosto, sem encostar. Mudei a posição do pé esquerdo, para dar melhor apoio aos nossos dois corpos magros. Meus pulmões inevitavelmente foram preenchidos pelo cheiro etílico que exalava da pele flácida, enrugada, íntima do cimento das ruas e das calçadas. Não o soltei, não me desviei do corpo que insistia em encontrar o velho amigo chão. Foi então que, num lampejo de agradecimento, surpresa e ternura, a anos acumulada em um peito abandonado, suas mãos apertaram forte meus ombros, e um abraço foi simulado. Estava completamente embriagado, mas aquele sorriso foi o mais sóbrio e sincero que pude ver hoje, ao contrário de todos os sorrisos automáticos e plásticos com os quais estou habituado. Em uma fração mínima de tempo, me senti um estranho. Vi-me estranho às outras pessoas apressadas que com ele cruzaram até aquele instante e, como fazem com os cães que habitam perdidos os cantos sujos dos centros das cidades, se esquivaram. Céus! e eu que costumo me ver semelhante a todos os que andam apressados, bem vestidos e com as cabeças cheias de preocupações... que nem suas, são. Prostituídos! Cegos pela insensatez de uma vida sem sentido. Mal podemos notar cães e bêbados que, para nós, seres superiores, são parte da paisagem urbana, quando não metem-se em nossos caminhos sagrados. Por um segundo, me senti bem. Conheço alguém que costuma afagar cães de rua, como se não existisse nenhuma prova maior de amor. E não há. Amanhã, o homem possivelmente não se lembrará do jovem desconhecido, de uniforme e agasalho confortável, que impediu que rosto e cimento ásperos se tocassem. Mas é muito provável que, nas próximas vezes, ele consiga encontrar seu velho amigo, sem que ninguém perceba. Apressados, esquivam-se, e continuam andando.

Comentários

  1. Depois do telefonema, fiquei curiosa pra ver o que você havia escrito. E só digo uma coisa, você sempre me surpreende. Adorei a forma e o conteúdo. A sua sensibilidade pra escrita é incrível.
    Um beijo, de quem te admira em todos os detalhes.

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